Unidade como estratégia de sobrevivência
Convergir para Avançar: um chamado ao povo preto
Este texto nasce de um compromisso com a responsabilidade política, a memória histórica e o futuro do povo preto. Ele não é um manifesto de exclusão, tampouco um chamado ao isolamento. É um convite à reflexão madura, ao diálogo estratégico e, sobretudo, à organização coletiva.
Vivemos um tempo em que nossas diferenças internas têm sido frequentemente exploradas para enfraquecer pautas que são urgentes e consensuais. Aqui, propomos o caminho oposto: reconhecer a pluralidade de vivências do povo negro sem perder de vista aquilo que nos conecta de forma inegociável, nossa história comum, nossa condição social compartilhada e nosso direito de existir com dignidade e poder político.
Este conteúdo é um chamado à convergência, à construção de agendas comuns, à formação de lideranças e à ocupação consciente dos espaços de decisão. Um chamado que parte da certeza de que não há democracia plena enquanto o povo preto seguir à margem do poder.
Convergir, neste contexto, não é abrir mão de identidade. É optar pela sobrevivência. É escolher o futuro.
Entre diferenças internas e um destino comum: a urgência da organização política do povo negro
Há um debate que se tornou inadiável entre nós, povo preto: o que nos divide não pode continuar sendo mais forte do que aquilo que nos une. O mundo não espera. As estruturas de poder não pausam.
A história demonstra, de forma reiterada, que povos que não se organizam em torno de agendas comuns pagam um preço alto demais.
É preciso maturidade política e compromisso coletivo para reconhecer que, apesar das nossas diferenças sociais, econômicas, ideológicas, religiosas ou afetivas, há uma realidade que não se altera: seguimos sendo negros aos olhos de uma sociedade estruturalmente racista.
Sejamos pobres ou ricos, trabalhadores CLT, empresários ou empreendedores; de esquerda ou de direita; em relacionamentos inter-raciais ou não; evangélicos, ateus ou praticantes de religiões de matriz africana ,no final do dia, a racialização nos alcança da mesma forma e em qualquer lugar. Como disse a jornalista e apresentadora Gloria Maria: “nada blinda gente preta do racismo”.
Enquanto povo preto, descendente de África, nossa maior vulnerabilidade hoje é a desarticulação política. Nossa maior potência reside na capacidade de agir coletivamente quando compreendemos, com lucidez histórica, quem são nossos adversários estruturais e quando deixamos de transformar nossas diferenças internas em instrumentos de autossabotagem.
É necessário dizer isso de forma direta e responsável: nem todo conflito entre pessoas negras nasce de escolhas individuais. Muitas vezes, ele é resultado de uma lógica histórica que nos antecede.
A escravidão não foi apenas um sistema de exploração econômica; foi também um projeto sofisticado de fragmentação social. A figura dos chamados “negros da casa-grande” e dos capitães do mato foi construída para dividir, gerar rivalidade, instaurar desconfiança e impedir a organização coletiva do povo negro. Essa lógica não desapareceu com o fim formal da escravidão ,ela apenas foi atualizada.
Hoje, ela se manifesta quando a exceção é usada para negar a regra; quando a ascensão individual é instrumentalizada para afirmar que o racismo deixou de existir; quando somos estimulados a disputar reconhecimento entre nós, enquanto o acesso real ao poder segue concentrado nas mesmas mãos. Como alertou Frantz Fanon, o sistema colonial não se sustenta apenas pela força, mas pela internalização da hierarquia.
É fundamental ter clareza: mobilidade social não nos retira da condição racial. Símbolos de status não alteram a forma como somos lidos socialmente. Um homem negro dirigindo uma Ferrari continua sendo identificado como negro antes de qualquer outro marcador. Uma mulher negra em posição de destaque continua sendo racializada. No final do dia, os não brancos sabem exatamente quem é negro, quem é descendente de África ,e agem a partir dessa leitura.
Isso não significa demonizar pessoas negras que ocupam espaços de privilégio, nem transformar diferenças internas em campos permanentes de batalha. Significa compreender que o racismo opera de maneira coletiva e, portanto, precisa ser enfrentado coletivamente. Como lembrava Lélia Gonzalez: “o racismo à brasileira é sofisticado, mas nem por isso menos violento”.
Também é essencial afirmar, sem ambiguidades: este não é um chamado ao isolamento. Muito pelo contrário. Trata-se de uma defesa consciente da inclusão e, consequentemente, da democracia.
Não podemos abrir mão dos espaços políticos, dos espaços de decisão e de poder. Não podemos abrir mão da disputa de narrativas, de orçamentos, de políticas públicas e de agendas estratégicas.
Os donos do poder, historicamente, não somos nós. E justamente por isso precisamos atuar com inteligência política. Isso inclui construir alianças com pessoas e grupos que, mesmo não sendo negros, estejam comprometidos com a construção de uma sociedade mais inclusiva, mais justa e verdadeiramente democrática. Como afirmou Angela Davis: “uma democracia que exclui o povo negro não é uma democracia”.
O alerta é inequívoco: quando nos dividimos, alguém ganha com isso. E tenha certeza ,esse alguém nunca é o povo preto.
Quando transformamos divergências legítimas em rupturas permanentes, facilitamos o funcionamento de estruturas que sempre lucraram com nossa fragmentação. Unidade não é uniformidade. Convergência não é silenciamento.
Organização política não é ódio ,é estratégia de sobrevivência.
DNA África: unidade como estratégia de sobrevivência
É justamente neste ponto que precisamos reafirmar aquilo que nos conecta de forma inegociável. O que nos une é mais profundo do que qualquer divergência circunstancial. É o DNA África.
Ele não é apenas herança genética. É memória histórica, experiência compartilhada, marca política e condição social imposta. É, ao mesmo tempo, aquilo que nos vulnerabiliza em uma sociedade racista e aquilo que nos fortalece enquanto povo. É fonte de resistência, criatividade, reinvenção e futuro.
Reconhecer essa base comum não significa apagar vivências individuais. Ao contrário: cada pessoa negra carrega uma trajetória singular, atravessada por classe social, território, gênero, fé e oportunidades desiguais. Ignorar essas diferenças seria desonesto e injusto.
Mas reconhecer a diversidade interna não pode se transformar em paralisia política.
O desafio do nosso tempo é outro: superar a fragmentação e investir conscientemente nas convergências. Isso exige maturidade, empatia, solidariedade, generosidade política e senso de urgência.
Precisamos identificar e eleger lideranças comprometidas com o povo preto. Precisamos estabelecer agendas comuns, prioridades claras e estratégias de longo prazo. Precisamos compreender que só haverá avanço real quando atuarmos como um corpo político organizado ,e não como ilhas em disputa permanente.
Convergir não é abrir mão de identidade.
Convergir é opção de sobrevivência.
Convergir é escolher o futuro.
Texto: Raka Costa
Imagem: IA
