Lugar de fala precisa ser lugar de decisão: Mulheres, Voto, Poder e Democracia
Mulheres são maioria do eleitorado brasileiro e ainda minoria no poder
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmam uma realidade incontestável: as mulheres são maioria entre as pessoas aptas a votar no Brasil. Hoje, mais de 81,8 milhões de eleitoras compõem o eleitorado nacional, o que representa 52,47% do total. Deste contingente, cerca de 20 milhões estão na faixa etária entre 45 e 59 anos, um grupo com forte peso político, social e econômico.
Os números não são apenas estatísticas, eles revelam a centralidade das mulheres no processo democrático brasileiro, ainda assim, existe um abismo evidente entre o tamanho dessa participação nas urnas e a presença feminina nos espaços onde as decisões são tomadas.
Maioria nas urnas, minoria no Parlamento
Apesar de serem maioria do eleitorado, as mulheres seguem sub-representadas no Parlamento e no Poder Executivo, o contraste expõe um problema estrutural: a democracia brasileira ainda opera sob bases profundamente machistas, que dificultam o acesso e a permanência das mulheres nos espaços de poder. Essa exclusão não é simbólica ,ela tem consequências concretas, leis são formuladas, orçamentos são definidos e políticas públicas são implementadas, muitas vezes, sem a participação efetiva de quem vivencia na pele as desigualdades de gênero.
Lugar de fala também é lugar de decisão
Em um país que figura entre os que mais matam mulheres pelo simples fato de serem mulheres e que ocupa posições alarmantes nos rankings de gravidez na adolescência, a ausência feminina nos espaços decisórios não é um detalhe: é parte do problema. Ampliar a presença das mulheres na política não é concessão, é necessidade democrática, decisões mais justas exigem diversidade, escuta e representatividade, exigem que quem tem lugar de fala também tenha lugar de poder.
O recado para as urnas é claro
Quem deseja se eleger no Brasil precisa, necessariamente, dialogar com o público feminino, e isso não se faz com discursos vazios ou promessas pontuais, mas com compromissos reais, programas consistentes e respeito à inteligência política das mulheres.
Da mesma forma, os partidos políticos precisam ir além do discurso protocolar e apostar de verdade nas candidaturas femininas: ampliar recursos, garantir visibilidade e fortalecer a bancada feminina como projeto político, não como obrigação legal.
Política também é assunto nosso
E quanto a nós, meninas, é preciso dizer sem rodeios: não podemos nos dar ao luxo de ignorar a política. Quando nos ausentamos do debate, alguém sempre fala por nós, e, à luz da realidade atual, fica evidente que isso não tem funcionado. Falar de política é falar de vida, de direitos, de futuro. É ocupar espaços, tensionar estruturas e transformar números em poder real. Porque se somos maioria nas urnas, também precisamos ser maioria nas decisões.
Por que falar de política é urgente e inegociável
Existe uma tentativa constante de afastar as mulheres da política, como se ela fosse um tema técnico, árido ou inadequado para nós. Isso não é acaso, é estratégia, quando, nós, mulheres, não falamos de política, outras pessoas decidem por nós.
A política atravessa absolutamente tudo: a existência ou não de uma creche pública, o acesso a políticas de concepção e planejamento familiar, a definição de em quais circunstâncias o aborto deve ou não ser permitido, o financiamento da saúde, da educação, da assistência social, o combate, ou a perpetuação, das desigualdades. Silenciar as mulheres nesse debate é garantir que decisões fundamentais sobre nossos corpos, nossos filhos e nossas vidas continuem sendo tomadas sem a nossa participação.
O silêncio nunca nos protegeu
Historicamente, mulheres foram ensinadas a não se posicionar, a evitar o confronto e a tratar política como algo distante. O resultado está diante de nós: leis feitas majoritariamente por homens, políticas públicas que não dão conta da realidade feminina e um Estado que falha, repetidas vezes, em nos proteger. Falar de política não é radicalismo, radical é um país em que mulheres são maioria da população, maioria do eleitorado e ainda assim minoria absoluta no poder.
Política é ferramenta de sobrevivência
Quando uma mulher entende que política é sobre orçamento, prioridades e escolhas, ela entende também que se ausentar não é neutralidade, é abrir mão de poder. Por isso, falar de política é um ato de responsabilidade coletiva, é ocupar espaços, disputar narrativas e transformar voto em projeto de país. Porque, no fim das contas, quando nós, mulheres, falamos de política, não estamos falando apenas de ideologia. Estamos falando de vida.
Segurança pública também é uma pauta das mulheres, e das mães
Quando falamos em segurança pública, é comum que o debate seja capturado por discursos simplistas ou distantes da realidade cotidiana. Para nós, mulheres, especialmente mulheres mães, segurança pública não é conceito abstrato: é rotina, urgência e medo concreto.
É a preocupação com o trajeto até a escola, com o transporte público no fim do dia, com o retorno dos filhos para casa, com a violência que atravessa territórios marcados pela desigualdade, é também a ausência do Estado em políticas de prevenção, cuidado e proteção social.
Segurança pública, para as mulheres, passa por iluminação das ruas, presença de políticas sociais, acesso à educação, saúde mental, combate à violência doméstica e enfrentamento ao feminicídio. Passa por decisões orçamentárias e por escolhas políticas que priorizam vidas,ou escolhem ignorá-las.
Por isso, não podemos aceitar que esse tema seja tratado sem a nossa voz, quando mulheres ficam fora do debate sobre segurança pública, as soluções tendem a ignorar quem mais sofre seus impactos.
Falar de segurança pública é falar de direito de ir e vir, de criar filhos com dignidade e de existir sem medo, e isso, mais uma vez, é política.
Se somos maioria, precisamos agir como maioria
As mulheres já são maioria do eleitorado brasileiro, o que ainda falta é transformar esse número em consciência política, pressão organizada e ocupação real dos espaços de poder.
Não basta votar, é preciso acompanhar, cobrar, disputar narrativas, apoiar candidaturas comprometidas com a vida das mulheres e recusar projetos que nos silenciam ou nos colocam em risco. Falar de política é um ato de coragem, mas também de responsabilidade, é entender que cada escolha eleitoral impacta diretamente a nossa segurança, nossos corpos, nossos filhos e o futuro que estamos construindo.
Que a nossa maioria nas urnas deixe de ser apenas estatística e se torne força política ativa, porque democracia de verdade só existe quando mulheres participam, decidem e governam.
O recado está dado. Agora, é ação.
Texto: Raka Costa
Imagem :Internet
