A Intolerância Como Projeto de Poder

Como a intolerância estrutura conflitos, lucros e sistemas de dominação



Nenhum conflito no mundo surge do acaso.

Nenhuma guerra começa sem um discurso que desumaniza, toda violência é precedida por intolerância organizada.

Podemos afirmar, sem medo de errar: todos os conflitos e violências no planeta são fruto da intolerância, alimentada pela recusa em conviver, pelo medo do diferente e pela promoção deliberada do ódio como estratégia de poder.

A intolerância não é apenas um desvio moral individual, é um projeto político, construído em narrativas que elegem inimigos, hierarquizam vidas e decidem quem merece existir com dignidade e quem pode ser descartado. É assim que governos autoriza guerras, e  assim que Estados normalizam mortes, é  assim que sistemas sustentam desigualdades.

Guerras não acontecem tão somente por ideologia, acontecem porque alguém ganha com elas. Conflitos se prolongam porque rendem poder, dinheiro e controle. Enquanto poucos acumulam lucros e influência, muitos são convencidos a lutar batalhas que não compreendem completamente, e quase nunca em seu próprio benefício.

O sistema transforma pessoas em instrumentos, constrói inimigos, simplifica narrativas e recruta exércitos de gente comum, pessoas que, muitas vezes, nem sabem exatamente por que odeiam, por que atacam ou por que morrem.

Machismo, misoginia, racismo, homofobia, transfobia e intolerância religiosa não são fenômenos isolados, são engrenagens do mesmo mecanismo de dominação, servem para dividir, controlar e manter privilégios intactos enquanto a violência se espalha.

Quando o ódio vira discurso oficial, a democracia adoece, quando a exclusão vira política pública, a violência se institucionaliza e quando a diferença vira ameaça, o extermínio se torna aceitável.

Nada disso é aleatório, é escolha, é cálculo estratégico, é poder operando. Não existe neutralidade possível diante da intolerância: silenciar é permitir, relativizar é legitimar e ignorar é autorizar.

Como alertou James Baldwin :“ignorância, aliada ao poder, é o inimigo mais feroz que a justiça pode ter.”

Quando o ódio encontra estruturas dispostas a sustentá-lo, a violência deixa de ser exceção e passa a ser método, ou enfrentamos politicamente a intolerância em todas as suas formas, ou continuaremos assistindo à repetição infinita de conflitos, guerras e mortes, sempre justificadas por discursos que negam humanidade a quem ousa existir fora da norma. E é impossível fugir da pergunta: quem faz as normas? A história já mostrou onde isso termina.

Tudo isso não é novidade para a maioria dos seres humanos. Ainda assim, quando falamos dessa forma, tudo parece distante, abstrato. “É o sistema”, dizemos. “E eu não posso fazer nada.”
Mas será mesmo?

O mundo, e o tecido social que o sustenta, é composto por cada um de nós, enquanto indivíduos. A história da nossa civilização é cíclica, e todas as vezes em que esses ciclos foram interrompidos, isso só aconteceu porque houve participação consciente do coletivo. Nenhuma transformação nasceu da indiferença, nenhuma mudança veio da omissão. Não podemos nos dar ao luxo de perder a capacidade de indignação diante de tantos horrores frutos da intolerância. A indiferença é o terreno mais fértil para que o ódio se organize, avance e se repita, indignar-se não é exagero. é responsabilidade histórica.

A pergunta que resta é: quem escolhe interromper esse ciclo?

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