Saber de onde viemos é reconstruir quem somos

 

Rastrear nossas origens é mais do que um gesto simbólico ,é um ato político, científico e de afirmação da identidade negra.

Durante séculos, nossas histórias foram silenciadas, apagadas ou contadas por outras vozes. O projeto colonial não se limitou à escravidão física, ele buscou, sobretudo, romper os laços simbólicos que nos uniam ao nosso passado. Destruir as possibilidades de construção da identidade é uma das formas mais eficazes de inviabilizar a autoestima de um povo.

Mas estamos reconstruindo esses elos.
Hoje, a ciência nos devolve caminhos que o racismo tentou apagar. Por meio do rastreamento genético, é possível identificar as regiões da África de onde vieram nossos antepassados. Cada resultado não é apenas um dado biológico: é um fragmento de memória recuperada, um reencontro com histórias que nos pertencem.

Saber de onde viemos é mais do que um gesto simbólico, é um ato de reparação e planejamento de futuro. Quando conhecemos nossas origens, passamos a compreender que o continente africano não é uma entidade única e homogênea, mas um vasto mosaico de povos, etnias, culturas e especificidades biológicas.

Esse conhecimento tem impacto direto na construção de políticas públicas eficazes, especialmente na área da saúde.
A medicina, por muito tempo, se baseou em parâmetros eurocêntricos, ignorando as particularidades genéticas das populações africanas e afrodescendentes. Entretanto, ao reconhecermos que o continente africano é composto por mais de 50 países, cada qual com suas características genéticas e culturais, abrimos espaço para uma ciência mais justa e precisa, uma ciência que nos enxerga.

Conhecer nossas raízes também nos permite repensar as estratégias de cuidado, de prevenção e de representação.
É compreender que nossa ancestralidade não é uma herança distante, mas uma estrutura viva que compõe quem somos,em nossos corpos, em nossos traços, em nossos saberes e afetos.

A pensadora Lélia Gonzalez já nos alertava: “a amefricanidade é uma identidade construída na resistência e na criação de novas possibilidades.”
Ao nomear-se, o povo preto resgata sua humanidade, e ao descobrir suas origens, reafirma seu direito de existir com dignidade e conhecimento de si.

O rastreamento genético, nesse sentido, não é apenas uma ferramenta científica. É um instrumento político, social e simbólico de reapropriação da nossa história. Ele nos permite reconstruir uma narrativa interrompida ,e, sobretudo, planejar um futuro que nos reconheça em toda a nossa diversidade.

Saber de onde viemos é uma forma de olhar para frente.
É garantir que as próximas gerações cresçam conhecendo as potências de sua ancestralidade e compreendendo que ser negro é, antes de tudo, ser descendente de civilizações inteiras, e não apenas de uma história de dor.

Reconhecer nossas origens é reconhecer o nosso poder.
E poder, para o povo preto, sempre foi sinônimo de resistência, sabedoria e transformação.
Texto: Raka Costa
Imagens: IA


Apresentação pública do projeto DNA África

O Movimento DNA África é uma iniciativa do Instituto Mulher Negra e Cia, da ex-vereadora Claudete Alves e do Deputado Estadual Antônio Donato, que uniram forças para promover o reconhecimento das origens africanas como caminho de reconstrução da identidade do povo preto e base para a criação de políticas públicas justas e inclusivas.

No próximo dia 27 de novembro, os idealizadores do movimento realizam o evento de lançamento oficial do projeto DNA África, marcando uma nova etapa na mobilização pela transformação da iniciativa em política pública nacional.

O encontro reunirá lideranças, pesquisadores, representantes do poder público e diplomatas de países africanos, todos unidos em um mesmo propósito: reconectar o Brasil às suas raízes africanas.

O evento conta com o apoio do Aristocrata Clube, da MMF – Projetos de Infraestrutura e do Sedin – Sindicato dos Educadores da Infância.

📣 Serviço:
Lançamento do DNA África
📅 Data: 27 de novembro
📍 Local: Auditório do Aristocrata Clube – Av. Piassanguaba, 3049 (próximo à Estação São Judas do Metrô)
🏙️ Bairro: Planalto Paulista, São Paulo – SP
Horário: 19h30


Mulher Negra e Cia
Reconectando histórias, fortalecendo identidades.

Postagens mais visitadas