Espelhos do Poder: o reflexo ainda não nos mostra de volta
Por | Mulher Negra e Cia
Há quem comemore o “avanço da diversidade” na política brasileira. E de fato, há números novos. Há mais mulheres, há mais pessoas negras, há discursos sobre inclusão ecoando pelos corredores de Brasília.Mas quando a base era o vazio, qualquer presença já soa como revolução.
Hoje, no Senado Federal, onde 81 pessoas decidem parte do destino do país, nenhuma mulher negra ocupa uma cadeira. Nenhuma.
E na Câmara dos Deputados, em meio a mais de 500 parlamentares, apenas 29 mulheres negras foram eleitas na última eleição.
É o maior número da história ,e, paradoxalmente, ainda um número pequeno demais para fazer história.
O Congresso Nacional é o retrato da sociedade brasileira ,e como todo retrato, revela mais do que mostra.
Revela quem continua do lado de fora.
Revela quem ainda é convidado apenas para a foto, não para o poder.
A ausência de mulheres negras no espaço político não é acaso: é construção.
A política brasileira foi moldada num molde que não nos contemplava.
E o mais curioso é ver como esse molde resiste, mesmo em pleno século XXI, disfarçado de “neutralidade”, quando na verdade continua reproduzindo o mesmo padrão de sempre : homem, hetero, branco, abastado, confortável.
Representatividade não é luxo. É oxigênio democrático.
Quando mulheres negras ocupam espaços de poder, as pautas mudam, os olhares se ampliam, a agenda pública ganha cor, textura e verdade.
Porque só quem sente o peso da desigualdade entende o verdadeiro valor da justiça.
Mas a discussão racial segue em segundo plano nos partidos políticos.
E não é por acaso, os partidos são espelhos da sociedade.
E se a sociedade ainda evita se olhar de frente, os partidos preferem continuar com o reflexo conveniente.
As eleições majoritárias do próximo ano não serão apenas uma disputa de votos ,serão uma disputa de visibilidade, narrativa e direito à decisão.
E nós, mulheres negras, não podemos mais assistir de longe ao espetáculo da democracia.
Precisamos estar no palco, escrevendo o roteiro, dirigindo a cena e assinando o final.
Então, sim, que comemorem os avanços, mas que não confundam migalhas com conquistas.
Porque o verdadeiro avanço será quando o poder tiver, finalmente, o rosto do Brasil real.
E esse rosto, convenhamos, tem cor, tem história e tem nome: o nosso também.
