Comissão do Senado aprovou nesta quarta feira( 09) porte de arma para mulher com medida protetiva




Imagem :Edilson Rodrigues/Agência Senado


"Armas e Ausências”



Era uma vez, no Senado, a casa onde o tempo corre diferente, resolveu-se aprovar algo inusitado: mulheres com medida protetiva poderão portar armas de fogo. Não estamos falando de proteção preventiva, políticas públicas, abrigos ou educação para a paz. Não. É bala na agulha. O texto, relatado por Magno Malta, caminha agora para a Comissão de Segurança Pública. Caminha como quem desvia de buracos em uma estrada esburacada pela negligência. A proposta não vem embalada em fita de esperança, mas embrulhada no mais puro reconhecimento: o Estado falhou. É oficial. A mãe gentil virou madrasta ausente. E o recado é claro, ainda que implícito: “Não conseguimos proteger você, pegue essa arma e tente sobreviver.”Como chegamos aqui? Quando foi que naturalizamos a ideia de que o enfrentamento da violência doméstica deve ser resolvido na base do revólver? 

A casa deixou de ser lar e passou a ser arena. Amor virou cautela. E proteção virou pólvora.

O que dizem as estatísticas? Que a maioria das mortes de mulheres ocorre dentro de casa, por mãos conhecidas, muitas vezes amadas. E agora, essas mãos terão sua contraparte armada, também conhecida, talvez igualmente amada. Porque é isso que o projeto propõe: o duelo institucionalizado entre o abandono e o desespero.

Não se discute o medo dessas mulheres. É legítimo. O que se questiona é a resposta. Dar uma arma a uma mulher em risco não é proteção. É renúncia. É o Estado dizendo: “Estamos cansados de tentar. Boa sorte.”

E nesse faroeste moderno, a bala não é solução. É só mais um sintoma da tragédia. É o som do silêncio estatal estampido por estampido. É a falência estampada em cartório.

No fim, não resta muito mais que um eco amargo: se a saída é o gatilho, o que dizer das portas que nunca se abriram?

Talvez, um dia, a mãe gentil Brasil, acorde e entenda que proteger não é armar, é amar, é amparar. é estar presente.
Mas até lá, boa sorte. E, por favor, mire com cuidado.

Créditos:


Texto: Raka Costa 
para Mulher Negra e Cia



Imagem: Edilson Rodrigues
Agência Senado

























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